top of page
Buscar

Melhores momentos do episódio 3 - Johnny Santos feat. Cifoescoliose

  • Foto do escritor: Bio Sym
    Bio Sym
  • 3 de out. de 2021
  • 8 min de leitura

Atualizado: 15 de out. de 2021


Bem-vindos aos melhores momentos do episódio 3 - Johnny Santos feat. Cifoescoliose


Primeira coisa que eu ia te perguntar se você pode contar um pouco para ver com suas próprias palavras sobre a sua condição?

A minha deficiência é tipo uma escada que forma na minha coluna, mas o nome dela no código de doenças é cifoescoliose; que é um nome bonitinho para dizer que eu tenho uma coluna no formato de um S. Ela começa na parte de cima esquerda (a ponta do S), e termina do lado direito embaixo, formando um S na coluna, que traz uma “corcunda protuberância” bem visível do lado esquerdo e uma curvatura da lombar.


Isso é algo desde que você nasceu ou foi algo que foi meio que “entortando” conforme você foi crescendo?

Bom, a minha deficiência é congênita e significa que ela foi uma má formação no útero, eu já nasci assim.


Como são suas questões familiares?

Eu cresci com a minha irmã mais velha, e meus pais ainda são vivos, trabalham ainda para caramba e moram no litoral de São Paulo. Crescer com uma deficiência na minha família sempre foi um diálogo muito aberto, por exemplo, existe uma superproteção da criança com deficiência, vira algo tão protetor que impede a criança de vivenciar experiências, mas nunca teve isso conosco. Também comecei a trabalhar muito cedo, então nunca tive nenhum impedimento ou superproteção por conta da deficiência.

Eu tinha mais problema com os parentes, porque a minha deficiência é física, não me impede nada mentalmente, mas era tratado como uma doença mental, pela parte da família do meu pai. Então tinha esse preconceito muito forte e velado.


E como foi o preconceito da sociedade? E como você lida?

Quanto ao preconceito é muito louco, porque eu sou uma pessoa preta, então tem a pergunta: “Quando você se entendeu como pessoa preta?” e a gente responde “Quando a sociedade nos mostrou que nós éramos pretos”. Já pessoas com deficiência física aparente, que é o meu caso, também tem essa mesma resposta: “é quando a sociedade mostra pra gente”, de formas não muito positivas, que a gente é deficiente físico aparente. Como foi esse primeiro choque?

O primeiro choque foi quando eu estudei numa escola que ficava na rua de casa, até a quarta série, e aí quando eu mudei para outro colégio, saí de um colégio pequeno para um muito grande, que também era muito longe de casa. Então eu tive um choque na quinta série que eu descobri que eu era pcd, comecei a sofrer muito bullying, pesadíssimo, de violência física, de sangrar, de chute, era bem pesado, bem pesado mesmo.E isso durou a minha vida inteira, então toda a vida escolar foi sofrendo essas violências físicas e posteriormente verbais. Então, eu resolvi fazer algumas artes marciais para me defender e isso ajudou a diminuir os ataques, por isso eu super incentivo às lutas de auto defesa.


E a adolescência? Foi com muito preconceito, mas também acolhimento. Eu falo muito das violências porque é o que mais marca, mas também tem o acolhimento dos amigos, porque mesmo com toda essa discriminação, esse preconceito, eu ainda me candidatava para cargos públicos do grêmio. Por exemplo, mutirão de limpeza, estava engajado dentro da escola, tirava boas notas, era da turma que curtia um rock n roll, eram os descolados (risos), até hoje a juventude gosta de se organizar em pequenos nichos. Eu era do rock, mas também ficava com a galera do forró. Era uma forma de tentar mostrar que eu era para além de uma pessoa com deficiência que era atacada diariamente. Dialogar que eu era um ser humano, essa era ideia, mostrar que eu era um ser humano, além da deficiência física, que tem sentimentos, desejos e saberes. Então essa foi a realidade até o ensino médio.


Onde você morava na época?

São Paulo, Zona Sul, Capão Redondo.


Quantos anos faz isso mais ou menos?

Há 17 anos que isso tudo aconteceu. As contas de cabeça (risos)


E com relação aos ataques na escola, a diretoria não fazia nada, nem professores? Boa! Raros foram os momentos em que a direção ou coordenação pedagógica, faziam qualquer intervenção no que acontecia, porque uma escola na periferia não tem o mesmo olhar que uma escola num local privilegiado, e a gente só descobre isso na vida adulta. A gente sabe, tá vivendo, mas só entende na vida adulta, entende o quanto é distante.

A direção era composta por pessoas indicadas, pessoas que moravam na Paulista, moravam na Vila Mascote, que ainda era super burguesa na época, que moravam em bairros mais privilegiados, que viveram vidas muito privilegiadas. Eles entendiam que eu vivia em um momento de vitimismo, não viam a violência física acontecendo,para eles, era mais vitimismo do que coisas acontecendo.


Mas não tentaram intervir em nenhum momento?

Então, um dos momentos que eles tentaram fazer algo foi que nas escolas os lixos eram latas grandes que cabem uma pessoa dentro e aí me colocaram dentro desse latão nesse dia - já faziam isso com frequência de colocar e ficar chutando e nesse dia eles colocaram lá -. A escola ficava no alto de um morro e eles me soltaram dentro do latão e eu fui rolando morro abaixo. Por pouco eu não fui parar na avenida principal, que fica lá no pé do morro, e ficou no risco de acontecer várias coisas e aí neste dia que eu me machuquei bastante a escola tomou uma atitude e suspendeu alguns alunos e essa foi a maior atitude tomada. Então conversar com o pai... fazer a toda pedagogia de perdão, qualquer coisa de enfrentamento da violência não existiu, eram só suspensões e advertências

Era punitivismo e não pedagogia.


No fundamental, até antes, a gente não tinha muita noção do nosso espaço, eu só me dei conta de algumas coisas agora mais velho, porque por muito tempo vivi numa bolha. Aquilo que você comentou antes, da questão velada, que as pessoas acabam trazendo um preconceito muito velado, com um olhar de infantilização, aquele olhar de inferioridade.

Sim, perfeito, é exatamente isso. A relação entre a bolha e o que acontece realmente é muito louco. Eu sempre me questionava isso, como uma diretora de escola, como uma coordenação pedagógica, não entende o que tava acontecendo. E a gente acaba esquecendo de lutar ,nesse sentido do sistema, e vai pro “Under Ground”, que foi quando eu comecei a responder os ataques de fúria com fúria. Enfiar prego na perna do coleguinha que me ataca, técnicas de auto defesa que eu fui aprendendo, alguns narizes quebrados e sangues rolados, não vou mentir… Mas eu não sou do time da violência, sou do time da defesa, porque a gente também não vai apanhar a vida toda.

Agora voltando pra nossa pauta, o que você diria que é ser uma pessoa preta e deficiente? Qual é essa diferença? O que muda? Bom, (risos) eu costumo brincar sempre de uma forma muito saudável, que é um acúmulo de cotas, que a pessoa é preta, pcd, LGBT, é um acúmulo de minorias, mas quando a gente pensa de diferenças, ou, o que acrescenta o que não é tão bacana, acho que é a construção da personalidade e a construção do ser social, de como eu me coloco no mundo, faz toda a diferença. Acho que porta se abrem ou se fecham exatamente por isso, ou por ser pcd ou pessoa preta, então muita coisa acontece em vários locais e lugares.


Qual foi uma situação disso que já viveu?

Vou falar uma situação bem prática, em SP tem um Shopping bem de elite, alguns né, um deles parece que os seguranças são treinados para seguir pessoas pretas, e aí eu posso ser pcd e entrar no shopping, mas se eu também for preto, aí já tem algo muito errado. Os seguranças vem te dar todo um apoio de vigilancia, apoio de orientar onde é legal ou não legal andar no shopping, vem te mostrar a porta de saída, porque parece que você não consegue enxergar (ironia). Então ser pcd e ser pessoa preta conversa muito no sentido do ser social , de pertencimento à sociedade, de se colocar no mundo, e também traz algumas boas limitações do que as pessoas acham ou não do que a gente pode ou não fazer, então é sempre constante diariamente as falas, os questionamentos, as lutas. E como é isso nas redes sociais? Lá tem comentários de verdade criminosos, eu posto um vídeo mostrando looks que é um dos mais comentados, as roupas que eu gosto de usar e tal, aí a pessoa comenta algo muito nada a ver, “ah olha essa pessoa revoltada com o próprio corpo”, na verdade isso só me traz a informação de quem é frustrado com o próprio corpo é quem tá comentando; porque quando você ataca alguém gratuitamente, é porque você tá falando mais de si do que do outro.


E qual foi a melhor viagem que você já fez?

Difícil, mas acho que uma viagem que eu fiz de carro pela América do Sul, saí de SP com dois amigos e uma amiga, e nós subimos por dentro do Brasil, Venezuela, Colômbia...depois voltamos pelo Mato Grosso. Usamos mapa de mão, quase 10 anos atrás né, o GPS estava começando a surgir.


Você falou de trabalho, com o que você trabalha?

Hoje eu trabalho com consultoria de Recursos Humanos, na área de seleção e treinamento. Também contribuo numa pós-graduação no estado de Minas, e ajudo pessoas com monografias e TCC’s, faço essas revisões.


Falando nisso, como foi sua história acadêmica? Minha história acadêmica é muito louca. Quando eu falei do ser social, se jogar no mundo eu quis dizer isso. Primeiro cursei Gestão de Recursos Humanos, nem sempre a primeira graduação é o que você quer pra vida, não se prenda a isso, vivam e vivenciem o que vocês querem. Depois fiz duas especializações em psicologia, uma na Unicamp e uma na USP, uma sobre cultura e comportamento e a outra em história da arte. Depois mais uma especialização na PUC em política e sociedade, complementando o que queria estudar.


E você acha que a sua deficiência teve algum papel nesse seu direcionamento acadêmico?

Acho que acabou tendo mais nos outros do que em mim. Por exemplo, quando eu entrei na pós, eu estava super animado, pessoas diferentes, linha acadêmica, produção de conhecimento, tudo mais. Eu cheguei lá, encontrei com uma professora, pós doutora, que me tratava com infantilismo, e eu fiquei pensando, se a pessoa que é pós doutora me trata assim, eu não duvido de mais ninguém. Esse foi o maior choque que eu tive na minha vida, que eu percebi que não importa o status social ou o nível de conhecimento, se a pessoa não quiser ser uma pessoas melhor, ela não vai ser.


Você comentou sobre vida social e tudo mais...queria te perguntar como você vê essas questões de relacionamento sendo uma pessoa com deficiência e LGBTQIA+?

Para responder essa pergunta eu vou voltar um passo. Existe uma pirâmide no mundo LGBTQIA+ e aí as pessoas com deficiência estão na base da pirâmide, ou seja, elas são o nada, pensando assim, é extremamente difícil qualquer tipo de relacionamento. Primeiro que no topo estão os padrões, é assim que a gente chama as pessoas que são inalcançáveis, que são os não me toquem, que só se pegam entre si, por essa questão de exclusividade (eu jogo um shade às vezes gente, não liga). Eu vou falar da letra G, porque é a que eu mais círculo, mesmo sendo da letra B, é muito bizarro, é todo mundo muito carente afetivamente, mas ninguém quer se relacionar porque sempre tem um boy mais bonito, e vai criando esse ciclo de solidão e carência, total ausência de responsabilidade afetiva. É isso, você fica muito tempo sozinho porque não quer conviver com isso.


Por fim, queria te perguntar se teve alguma outra situação marcante que você queira comentar. Bem, sempre que eu viajo de avião para fora do país, as aeromoças perguntam se eu to acompanhado dos meus pais, porque eu sou baixinho, e aí quando elas olham a barba elas percebem e ficam super sem graças, que é uma questão do preconceito.

Outra situação foi quando eu viajei com meus amigos pra Venezuela, nós fomos abordados e eles foram super grossos com meus amigos, pediram pra sair do carro, só que eu demorei um pouco porque tava pegando meus documentos, aí o cara olhou pra mim de cima pra baixo e disse para eu não me preocupar que eu não precisava sair do carro, e se eu tivesse armado eu poderia ter feito alguma coisa, foi meio que uma passabilidade.


 
 
 

Comentários


bottom of page